Investir em ações é mesmo um risco?
Menos do que você pensa — se você souber o que está fazendo.


Investir em uma ação individual pode sim ser bastante arriscado. Veja esse exemplo.
Uma ação da Burberry, em maio de 2021, custava cerca de £21 cada. Se você tivesse £10.000 para investir, poderia ter comprado aproximadamente 476 ações nessa época.
Algum tempo depois, em abril de 2023, cada ação estava custando cerca de £26,41. Você era dono de 476 ações, e tinha pago £10.000 por elas. Se vendesse tudo naquele momento, teria um lucro de aproximadamente £2.571.
Mas você não vendeu, e o tempo passou.
Abril de 2025. Você foi checar o preço e levou um susto: cada ação tinha caído de £26,41 para £6,27 — uma queda de 76%. Você ainda era dono das mesmas 476 ações, mas agora, se vendesse tudo, receberia apenas cerca de £2.985 — menos de um terço do que investiu.
Mas por que a Burberry caiu tanto?
Não foi azar — foi uma combinação de erros estratégicos e um mercado que virou contra ela. A empresa passou anos tentando se reposicionar como uma marca de luxo de altíssimo padrão: mais exclusiva, mais cara, menos acessível.
O problema é que essa transição foi mal executada. Ela perdeu os clientes do luxo aspiracional — aqueles que compravam uma bolsa ou um cachecol de vez em quando — mas não conquistou os clientes do ultra luxo, que preferem Hermès, Chanel ou Louis Vuitton sem nem considerar a Burberry. A marca ficou presa num vazio: cara demais para quem comprava antes, barata demais para quem queriam atrair.
Ao mesmo tempo, a China — um dos maiores mercados de luxo do mundo — desacelerou drasticamente. Após o boom pós-pandemia, o consumidor chinês recuou, e marcas como a Burberry, que dependiam muito desse mercado, sofreram muito.
O resultado apareceu nos números: a empresa emitiu uma série de alertas de lucro ao longo de 2023 e 2024, informando ao mercado que os resultados seriam bem piores do que o esperado. Cada aviso derrubou o preço das ações um pouco mais.
Em setembro de 2024, a Burberry foi removida do FTSE 100 — o índice das 100 maiores empresas do Reino Unido — e rebaixada para o FTSE 250. Para muitos investidores, foi um sinal claro de que a empresa havia encolhido demais. Um novo CEO foi contratado para tentar virar o jogo, mas recuperar uma marca de luxo que perdeu o rumo leva tempo — e o mercado não costuma ter paciência.
Esse é exatamente o tipo de risco que existe quando você aposta em uma única empresa. Não importa o quanto você goste da marca, ou o quanto ela pareça sólida. Estratégias mudam, mercados viram, gestões erram. E o preço paga a conta.
Então sim: investir em ações pode ser muito arriscado, principalmente quando não há diversificação. Como diz o ditado: não coloque todos os ovos na mesma cesta.
Diversificar é fundamental — e é muito simples de fazer, através de ETFs globais
O que são ETFs globais?
Um ETF funciona como uma ação, mas o preço dessa ação sobe ou cai de acordo com o resultado de um conjunto de empresas que estão dentro dele. Um ETF bastante popular no Reino Unido é o Vanguard FTSE All-World, que investe simultaneamente em mais de 3.000 empresas de quase 50 países.
Ao investir ao mesmo tempo em mais de 3.000 empresas, você se protege de duas coisas:
A — Ter comprado uma ação que despencou
Dentro de um ETF global, com certeza haverá empresas que vão cair de preço — assim como a Burberry. Porém, existe uma outra enorme parcela que não vai cair, ou até mesmo vai subir — e às vezes subir muito. Isso protege o conjunto do seu investimento.
B — Ter deixado de comprar uma boa empresa que disparou
Outra proteção importante de investir através de ETFs é nunca perder a empresa que mais subiu no ano. Como dentro de um ETF você já tem todas, você vai sempre acabar investindo, mesmo sem querer, na melhor empresa do período.
Agora, vamos aos números
Em janeiro de 2020, uma cota do ETF global da Vanguard custava cerca de £65. Com £10.000, você poderia ter comprado aproximadamente 153 cotas.
Porém, como todo mundo lembra, em 2020 o mundo foi surpreendido por uma pandemia que afetou todos os países. O resultado? Quase todas as empresas tinham expectativa de ir muito mal, e os preços despencaram, praticamente juntos. A cota do ETF global foi de £65 para £51. Você ainda era dono das suas 153 cotas, mas se vendesse tudo naquele momento, receberia apenas cerca de £7.803.
Infelizmente, muita gente nesse momento acaba vendendo no desespero, achando que o mundo vai acabar e os preços vão cair ainda mais.
A verdade é que sim — o preço pode continuar caindo por um tempo. Mas uma hora ele volta a subir.
E em 2020, ele voltou.
Em junho daquele mesmo ano, as cotas já haviam voltado para cerca de £66. No final do ano, estavam custando £71.
Em fevereiro de 2025, cinco anos depois, a cota já estava em £115. Você, que era dono de 153 cotas e havia pago £10.000 nelas, agora, se vendesse tudo, receberia cerca de £17.595 — um lucro de £7.595.
Mas você não vendeu. Aí veio abril de 2025: Donald Trump anunciou tarifas generalizadas sobre o mundo inteiro. Resultado? Mais uma queda brusca. As cotas saíram de £115 para £96 — uma queda de cerca de 17%.
Mesmo assim, você estava no lucro. Afinal, cinco anos antes você havia pago apenas £65 por cota.
Mesmo assim, muita gente acaba entrando em pânico achando que o preço vai cair ainda mais. Mas como eu falei: uma hora a queda para, e uma hora o preço volta a subir.
Em julho de 2025, o preço já havia voltado para £116.
E hoje, uma cota do ETF global está custando cerca de £137. Você, que é dono de 153 cotas, se vender tudo agora receberia cerca de £20.961 — mais de £10.900 a mais do que investiu seis anos atrás.
O caminho foi tranquilo? Mais ou menos. Houve quedas — mas quedas temporárias. E quem teve paciência viu a recuperação.
Por que o preço tende a subir? E por que sempre há recuperação nas crises?
Dentro de um ETF global você tem as 3.000 maiores empresas do mundo. Empresas das quais você é consumidor por necessidade e também por escolha — todos os dias, muitas vezes sem nem perceber.
Pense: você acorda e checa o iPhone — Apple. Busca algo no Google — Alphabet. Faz uma compra no Amazon. Paga com o cartão Visa ou Mastercard. Bebe um café da Nestlé. Usa produtos da Unilever no banho. Veste uma peça da LVMH ou da Nike. Toma um remédio da Johnson & Johnson ou da Pfizer. Assiste a uma série na Netflix. Usa o Windows da Microsoft no trabalho. Faz uma transferência pelo PayPal. Compra algo que chegou num caminhão da UPS ou FedEx. Abastece o carro com combustível da Shell ou ExxonMobil. Come um lanche do McDonald's. Toma uma Coca-Cola. Usa o Excel da Microsoft para organizar as contas. Faz uma pesquisa no Facebook — Meta. Instala um app da Adobe. Ouve música no Spotify.
Todas essas empresas estão dentro de um ETF global.
Se o mundo continuar sendo mundo, essas empresas vão continuar vendendo e lucrando, por oferecerem produtos e serviços que nós gostamos e precisamos. É por isso que, no longo prazo, o preço tende a subir.
Isso quer dizer que não haverá crises? Não. Crises são mais comuns do que você imagina. Mas quem tem uma mentalidade de longo prazo sabe que isso faz parte. Na verdade, uma queda no preço das cotas, para quem entende o poder do longo prazo, é uma oportunidade.
Se as cotas estão custando £137, com £1.000 você consegue comprar cerca de 7 cotas. Se elas caírem para £96, você consegue comprar cerca de 10 — três a mais pelo mesmo dinheiro. É como comprar na promoção.
Para concluir
Essa estratégia de investir através de ETFs ainda é pouco falada no Brasil. E não é por acaso.
Investir através de ETFs é péssimo para o mercado financeiro tradicional, porque não gera comissão. Por isso, muitos profissionais fazem questão de esconder essa opção de você — ou simplesmente não sabem, o que, sinceramente, é ainda pior.
Há muitos anos existem pesquisas concretas mostrando que menos de 10% dos profissionais de investimento conseguem superar o retorno de ETFs globais de forma consistente. Nos últimos 22 anos, no Reino Unido, um ETF global teve um retorno médio de cerca de 10% ao ano.
É simples. Eficiente. E recompensador.
Quase todo mundo que começa diz a mesma coisa: como eu queria ter começado antes.
